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ESPECIAL - 10 ANOS SEM SERGINHO: 'Fui punido por documentos manipulados', diz médico

Na próxima segunda-feira, dia 27 de outubro, o futebol brasileiro completa 10 anos sem o zagueiro Serginho, que morreu em campo durante partida do São Caetano contra o São Paulo, no Morumbi. Para relembrar aquele que é talvez o episódio mais triste da história do Campeonato Brasileiro, o ESPN.com.br e a Rádio ESPN prepararam uma série especial para contar os bastidores do trágico evento, até hoje não esquecido.
No sétimo episódio da série, Paulo Forte, médico do São Caetano há mais de uma década e o primeiro a atender Serginho após a parada cardiorrespiratória, falou com exclusividade à ESPN sobre o caso que transformou sua vida, que inclusive vai se transformar em um livro.
O primeiro episódio da série, sobre o médico Paulo Forte, por ser lido aqui
O segundo episódio da série, sobre o massagista Itamar Rosa, pode ser lido aqui
O terceiro episódio da série, sobre a briga entre Serginho e Romário, pode ser lido aqui
O quarto episódio da série, sobre a revolta com a continuação do jogo, por ser lido aqui
O quinto episódio da série, sobre o árbitro Cleber Wellington Abade, por ser lido aqui
O sexto episódio da série, sobre os últimos momentos de Serginho, pode ser lido aqui

ESPN.com.br
MARCELO FERRELLI/Gazeta Press
Paulo Forte Médico São Caetano São Paulo Campeonato Brasileiro 03/11/2004
Paulo Forte usou uma tarja preta em seu uniforme na sequência de São Paulo x São Caetano
Dez anos depois da morte de Serginho, o médico do São Caetano, Paulo Forte, ainda não se conforma por ter sido apontado como responsável e levado um gancho de quatro anos do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) pelo ocorrido.

Em entrevista ao ESPN.com.br e à Rádio ESPN, ele alegou que foi punido com base em "documentos manipulados" pelo promotor público Rogério Leão Zagallo, que tomou a frente do caso após a fatídica partida entre São Caetano e São Paulo, em 27 de outubro de 2004.
"Fui totalmente injustiçado. O STJD tomou uma decisão em cima de uma documentação totalmente manipulada feita pelo promotor público. Foi uma estupidez de muita grandeza", disparou Forte, que segue trabalhando na equipe do ABC.
Em uma pasta, ele guarda uma série de documentos sobre o caso, e mostrou todos eles à reportagem, inclusive o papel que acusa ter sido manipulado para incriminá-lo.
O médico, assim como o presidente do time azul, Nairo Ferreira, ficaram afastados dos estádios por um longo período, por ordem da justiça desportiva. Forte até seguiu fazendo seu trabalho no dia a dia da equipe, mas não podia prestar atendimento durante as partidas. Hoje, ele trabalha também na seleção brasileira sub-21 (leia mais sobre isso aqui).
Na entrevista, Paulo Forte também afirmou que nunca disse a Serginho que ele tinha "1%" de chance de morrer, como alguns jogadores relataram terem ouvido do zagueiro após o caso, e se defendeu das acusações feitas pelo massagista Itamar Rosa, com quem trabalhou no São Caetano, também em entrevista à ESPN (leia mais sobre isso aqui).
Leia a entrevista de Paulo Forte:
ESPN: O Serginho passou mal em um jogo contra o Flamengo um mês antes da morte dele. Teve alguma relação com a doença cardíaca?
Paulo Forte: Ele almoçou e passou mal no estômago, estava querendo ter diarreia, uma dorzinha. Foi queixa gástrica, nada relacionado a queixa cardíaca. Se ele tivesse isso [queixa cardíaca], garanto que não voltaria para o segundo tempo.
ESPN: O senhor pensou em abandonar a carreira de médico após o caso?
PF: Eu nunca deixei de trabalhar nenhum dia desde o episódio do Serginho. Teve a suspensão do STJD e eu fiquei trabalhando no vestiário, na fisioterapia, nas doenças dos atletas, só não fazia campo. O mais importante no cidadão de bem é a consciência, nunca me abalou em relação em nada em relação a profissão.
ESPN: Como foram os últimos 10 anos da sua vida?
PF: Esse episódio nunca vou esquecer. Nunca. Qualquer profissional que se depara com isso, não esquece nunca jamais. Mas não houve nenhum trauma, minha vida seguiu normalmente. Mas, claro, sempre lembrando o Serginho nas coisas do futebol.
ESPN: E como é sua vida hoje?
PF: Eu só trabalho com medicina do esporte. Minha vida é o futebol. Tenho dois filhos, um que trabalha com marketing e e uma filha que está no quinto ano de medicina. Sou separado, eles moram comigo em São Caetano.
Há 10 anos, morte trágica de Serginho marcava duelo São Paulo x São Caetano
ESPN: Que conselhos o senhor dá para sua filha que será médica?
PF: O conselho que eu dou, é o que eu já tinha como filosofia de vida antes do caso do Serginho: para ela ser sempre honesta com os pacientes e com as pessoas, falando a verdade, sendo honesta com os pacientes. Sendo sempre clara com as pessoas e na conduta dela. O que mais me marcou nestes 10 anos foi o reconhecimento da classe médica comigo neste caso. Eu falo: "filha, o médico está exposto a muita coisa, procure ser honesta quando falar com o paciente e assuma tudo".
ESPN: É verdade que o senhor está escrevendo um livro sobre o caso?
PF: Estou escrevendo o livro, sim. Algumas pessoas me procuraram, é uma história muito comovente, fiquei estes 10 anos recolhendo documentos e provas. Mas não com o objetivo de atacar ninguém, mas de ensinar e orientar a classe médica dos episódios que podem acontecer e do que é ser certo fazer.
ESPN: O doutor Edimar Bocchi, do InCor, disse que o Serginho já havia apresentado arritmia em exames anteriores ao daquele feito em 2004. É verdade?
PF: Sim.Ele apresentava arritmia, como muitos atletas apresentam. Hoje, ela faz parte do coração de atleta. O que precisa para quem tem isso é fazer exames para controlar.
ESPN: E é verdade que o exame do InCor havia detectado cardiomiopatia hipertrófica no Serginho, com o dr. Bocchi desejando "boa sorte" ao atleta, pois havia risco de morrer em campo?
PF: Não. A doença só foi detectada no laudo pós-morte no caso do Serginho. No começo do ano foi detectada uma arritmia típica de coração de atleta. No caso da cardiomiopatia hipertróficafoi só no exame necroscópico, ou seja, só depois que ele morreu. Quando ele estava vivo, o exame estava normal.
ESPN: Mas então por que o dr. Bocchi disse isso na fase inicial de investigação da Justiça sobre o caso?
PF: Não sei porque transferiram isso para gente. Eles fizeram tudo na pressa. Era só esperar o resultado da necrópsia! Dai quando saiu, me chamaram para fazer um laudo e dizer foi uma fatalidade, que ninguém tinha culpa de nada.
ESPN: O senhor...
PF: (interrompe) O exame do Serginho estava normal no começo do ano e ele foi desenvolvendo a miocardiopatia no decorrer do ano. O médico do (ex-atacante) Washington me falou que só da para evitar esta morte fazendo um ecocardiograma a cada três meses. E é isso que nós vamos implantar na seleção e aqui também. Nós fazemos exames só no começo do ano. Só que todos os jogadores que morreram em campo, a doença é esta. O que tenho falado com a seleção pra fora, vamos implantar estas modificações. Se é isso que mata o jogador, conversando com especialistas, a maioria dos jogadores morre disto, então vamos evitar. Essa é a orientação que recebo dos cardiologistas.
ESPN: Foi dito em algum momento ao Serginho que ele tinha cardiomiopatia hipertrófica , ou isso só foi descoberto na autópsia?
PF: Eu queria que ele tivesse tido algum sintoma (de cardiomiopatia hipertrófica), porque teríamos feito exame e a doença apareceria...
ESPN: Se a doença tivesse sido detectada antes, qual seria o procedimento? E como ele reagiria se fosse dito a ele que teria que parar de jogar futebol?
PF: Se ele tivesse sentido algum sintoma, eu teria encaminhado para o médico cardiologista, que certamente daria a restrição. Se ele tivesse qualquer impedimento, tenho certeza que ele iria parar numa boa, pois tinha mulher e filho. Nós teríamos dado alguma outra função dele no clube, de olheiro, algo assim.
ESPN: O ex-lateral Ânderson Lima disse que ocorreu uma reunião entre o senhor e os jogadores, no qual foi informado que só havia 1% de chance de acontecer algo ao Serginho. Isso é verdade?
PF: Não existe isso de porcentagem. Em medicina, 1% é 100%. Jamais um médico pode dizer isso a um atleta. E nunca houve esta reunião.
ESPN: Afinal, quantas pessoas sabiam que o Serginho tinha essa arritmia?
PF: A arritmia muita gente sabia, mas não era uma coisa divulgada. Ele não saia falando pra todo mundo que tinha, não ia parar, reunir todo mundo pra falar: "Olha, pessoal, eu tenho arritmia cardíaca".
ESPN: Em entrevista à ESPN, o massagista Itamar Rosa, que trabalhou com o senhor na comissão do São Caetano, disse a seguinte frase: "O Serginho sabia do risco, o São Caetano sabia, o médico sabia, todo mundo sabia... O próprio Serginho assumiu o risco de jogar. Não que ele fosse culpado, porque não tinha opção. Quem poderia intervir eram os médicos e o São Caetano". Concorda ou discorda?
PF: Se o Itamar sabia que tinha um risco, deveria ter sido amigo, como ele diz que é, e alertado o Serginho. Eu desconheço esta porcentagem, a Helaine [viúva de Serginho] também e a direção do São Caetano também. Se ele conhecia, deveria ter sido amigo do Serginho e alertado sobre o risco. Quem iria deixar o amigo morrer?
ESPN: O senhor foi indiciado por homicídio doloso, depois mudou para culposo, e depois que o InCor admitiu que o caso foi uma fatalidade, o caso foi arquivado. O senhor teve que fazer qualquer tipo de coisa em relação à Justiça?
PF: Tive que ir algumas vezes ao cartório para assinar papéis, coisa de uma vez por mês.
Marcelo Ferrelli/Gazeta Press
Paulo Forte Médico São Caetano Tenta Reanimar Serginho Morte São Caetano São Paulo Brasileiro 27/10/2004
Paulo Forte tenta reanimar o zagueiro Serginho
ESPN: O processo no Conselho Regional de Medicina segue aberto?
PF: Não. Todas as pendências desse caso acabaram.
ESPN: Como o senhor viu a punição imposta pelo STJD ao senhor e ao Nairo Ferreira?
PF: Fui totalmente injustiçado. O STJD tomou uma decisão em cima de uma documentação totalmente manipulada feita pelo promotor público [Rogério Leão Zagallo]. Foi uma estupidez de muita grandeza. Mas fiquei aguardado os acontecimentos. Eu só não podia fazer campo.
ESPN: Um exame do laboratório "São Caetano Saúde" realizado em 2004 apontou que o Serginho tinha presença de Digoxina, remédio contra-indicado para quem tinha a doença dele, no sangue. Foi o senhor que recomendou que ele tomasse?
PF: Claro que não. Nunca prescrevi, e nenhum médico do InCor prescreveu. Nunca receitei Digoxina, mesmo porque ele serve para quem tem insuficiência cardíaca, e eu sou ortopedista, não sei nem como lida com isso. Ele nunca usou isso (Digoxina), não tem cabimento.
ESPN: Tem muitas saudades do Serginho?
PF: Naquela época no São Caetano, todos tinham relação muito amistosa, frequentávamos um a casa do outro. Era um ambiente familiar, eu tinha amizade com todos. Levávamos o bom ambiente fora de campo, para dentro de campo. Minha relação com o Serginho aqui era de profissionalismo, fora do campo era de amizade.
ESPN: No fim das contas, há algum culpado pelo que aconteceu?
PF: O InCor reconheceu que foi uma fatalidade, em documento assinado pelo médico que avaliou o Serginho. Na visão deles, foi uma fatalidade em função de tudo o que aconteceu nos exames dele. Se me perguntar algo de ortopedia, eu te falo. De cardiologia, eu apenas cumpro ordens. Chegou-se à conclusão, segundo depoimento do InCor, que foi uma fatalidade. Se eles disseram isso, é porque têm certeza.










Fonte---------Espn.Brasil